Reza Deghati e sua fotografia transformadora


Conheça este fotógrafo de National Geographic comprometido com a transformação da sociedade e o fim das guerras por meio da imagem


As ruas de Sarajevo estavam sob tiroteios quando o iraniano Reza Deghati, fotógrafo de National Geographic, encontrou uma menina vendendo suas bonecas em plena guerra contra os sérvios. Ela arriscava a vida pela avó, que estava sem comer havia quatro dias. "Isso significa que a menininha também tinha fome e abria mão de suas preciosas bonecas de infância pela avó. Eu já tinha visto milhares de desabrigados e de corpos mortos pelos massacres, mas foi neste momento que chorei pela crueldade da guerra", conta ele. 

Mesmo com 30 anos de carreira fotográfica, cobrindo guerras e conflitos políticos e presenciando as piores facetas do ser humano, Reza garante que não se acostumou a ver a dor alheia como algo corriqueiro, ou a pobreza como parte da paisagem. "Mesmo hoje em dia, quando vejo um mendigo na rua, é como se fosse a primeira vez. Ainda dói", diz à NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. (A entrevista completa com Reza será publicada na revista) 

Para arcar com o peso emocional que carrega em seus trabalhos, o fotógrafo lê poesia. O chileno Pablo Neruda e Rumi, poeta persa do século 13, estão entre os escritores de suas indispensáveis leituras diárias. "É a melhor coisa para polir a alma. Se você aprende a ler, é como meditar e abstrair completamente a vida cotidiana", explica. 

Outra fonte de força é a crença inabalável no poder da imagem de mudar o mundo, da força do indivíduo nesse processo e de trilhar o caminho certo. "Se você for ver, todas as grandes revoluções e mudanças sempre começam com uma pessoa. Acredite no seu poder de mudança", aconselha. 

A cada problema encontrado, ele questiona como a fotografia poderia solucioná-lo. E, em alguns casos, a resposta acaba sendo criativa e surpreendente. Um exemplo disso aconteceu durante a guerra civil entre Ruanda e Burundi, no início dos anos 1990, cujo genocídio de 1994 foi representado no filme Hotel Ruanda. Em cinco campos de refugiados, Reza se deparou com 20.000 crianças perdidas: não sabiam onde estavam seus pais ou se haviam ficado órfãs com o massacre. A saída foi equipar e treinar refugiados para tirar fotos dos pequenos e identificá-los por números. No total, 12.000 retratos foram expostos em cinco exibições, uma em cada campo. “Foi um projeto bem pequeno e simples de ser feito. E apenas com isso, em quatro meses, 3.500 crianças reencontraram suas famílias.” 

O poder da convicção 

Durante a entrevista à NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL, Reza Deghati reforçou a importância de acreditar em si mesmo. Para ele, é aí que reside o poder de fazer qualquer coisa, até mesmo resistir à tortura, como fez aos 22 anos de idade. Em 1974, ainda era estudante de arquitetura e espalhava fotos de pobreza e de injustiças sociais pelos corredores da Universidade de Teerã. Isso rendeu-lhe três anos de prisão e seis de tortura. “Pra mim, a coisa principal era não quebrar sob tortura. Você não consegue imaginar quão poderoso é o cérebro. E o fato de acreditar que você tá certo”, diz, com firmeza. Isso, que carrega até hoje como espécie de mantra, foi um conselho de seu pai. 

Aos 16 anos, Reza usou a máquina de stêncil da escola para criar uma revista com poesia, textos e a história de uma senhora que vendia restos de peixes do mercado para sobreviver – ela era obrigada a dar 50% de seus rendimentos aos policiais que patrulhavam o local. Publicar o relato foi a tentativa de Reza de expor a injustiça e tentar revertê-la. 

Mas, em vez disso, o adolescente recebeu a inesperada visita da Savak, a polícia secreta do xá Mohammad Reza, que o agrediu, confiscou as cópias da revista e o ameaçou de morte, assim como sua família, caso publicasse outro exemplar. Contou a história a seu pai, que lhe disse: “Reza, você acredita no que está fazendo? Então continue fazendo”. 

E foi o que ele fez. Aos 30, o iraniano largou o curso de arquitetura e começou a trabalhar na imprensa como fotógrafo, seguindo a mesma linha de denunciar as mazelas da humanidade. Com o tempo, conquistou espaço em publicações como Time, Newsweek e National Geographic, assim como em galerias de Paris, Nova York e outras cidades mundo afora. 

Em 1991, a primeira reportagem entregue para National, sobre o Cairo, recebeu a seguinte resposta do editor: “Não podemos publicar isso. É muito forte”. “Eu disse que, se não publicassem, pegaria minhas fotos e voltaria para Paris”, lembra. O editor cedeu e as imagens foram impressas. “Eles receberam centenas de cartas agradecendo a revista por mostrar a realidade. Porque, naquela época, a Nationalnunca publicava fotos assim, só de pirâmides.” 

Além de cobrir guerras no Afeganistão, na Bósnia e em Ruanda, o fotógrafo documentou a resistência ao apartheid na África do Sul. Para ele, era inaceitável que houvesse separatismo étnico em pleno século 21. Mesmo em uma época em que os jornalistas eram proibidos de viajar para lá, fingiu ser um caçador de elefantes para conseguir um visto e passar três meses registrando os movimentos sociais. 

A experiência em acompanhar conflitos inspirou nele uma mudança de perspectiva fotográfica. Em 1983, Yasser Arafat visitou a linha de frente da Guerra do Líbano (1975-1990) e Reza estava entre muitos fotógrafos em Trípoli. Quando começaram bombardeios, os guarda-costas de Arafat levaram-no ao bunker e a imprensa toda o seguiu. “Antes de entrar também, pensei: ‘Reza, não siga todo mundo. Qual é o melhor ângulo?’. Então corri para o outro lado e consegui essa foto que ficou muito famosa”, diz ele sobre a icônica imagem de Arafat olhando para o exército sírio de dentro do bunker. 

Outra face desse aprendizado se revelou quando o iraniano fotografou a fome. Ao pesquisar as imagens que já tinham sido feitas sobre o assunto, ele percebeu que muitas delas não mostram a humanidade das pessoas retratadas. “Elas estão sempre no chão, morrendo, desumanas. Então eu me tranquei no meu apartamento e fiquei 72 horas sem comida para ter um pouco de entendimento”, conta. 

Reza também se dedica a outras atividades para complementar suas fotografias de denúncia. Em 1983, começou a treinar fotojornalistas no Afeganistão, na África do Sul, em Bangladesh e na Universidade de Beijing. Fundou uma organização sem fins lucrativos em 2001, a Aïna, que significa "espelho". A organização visa a capacitar mulheres a se tornarem jornalistas, fotógrafas e câmeras, além de criar mídia independente no Afeganistão. 

A Aïna também é um dos braços da luta do fotógrafo contra a militarização das crianças. Para isso, foi criada uma revista infantil pensada para educar os pequenos sobre a importância da fraternidade e do respeito. Lançada em 2002, a publicação foi batizada Parvaz, o mesmo nome daquela feita pelo Reza adolescente de 16 anos. Trinta e quatro anos depois das ameaças da polícia secreta, Reza provou estar certo o conselho de seu pai e publicou outro exemplar da revista proibida. E saiu impune. 

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL 


Site do Fotógrafo: Reza Deghati

Menina vendendo suas bonecas para comprar comida em Sarajevo, Bósnia, 1993

Menina afegã em uma zona tribal Pashtun, 2004

Homem tutsi em Ruanda, 1994

Crianças de um vilarejo onde o Himalaia encontra o Hindu Kush, no Afeganistão, 1985

Monte Ararat, Turquia


Comandante Massoud (1953-2001) durante invasão soviética ao Afeganistão (1979-1989), no Vale Panjshir, 1985

Fotógrafo Reza Deghati


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